3. REPORTAGENS maio 2013

1. CAPA  A CHAVE DA VIDA E DA MORTE
2. CINCIA  MARTE 2018
3. SADE  A QUMICA DA ACADEMIA
4. ZOOM  AI WEIWEI  UM ARTISTA DO TAMANHO DA CHINA
5. ATUALIDADES  NO LIMITE DO BRASIL
6. COMPORTAMENTO  GUIA PRTICO CONTRA ARREPENDIMENTOS
7. TECNOLOGIA  COMO NASCE UM METR
8. TECNOLOGIA  PQ VCS GOSTAM TANTO DO YAHOO RESPOSTAS?
9. CINCIA  O SEGREDO DAS FORMIGAS

1. CAPA  A CHAVE DA VIDA E DA MORTE
A doena mais mortal do sculo nasce dentro de cada um de ns, a partir do mesmo mecanismo que desenvolveu a nossa espcie. Por dcadas, a cincia buscou armas para expulsar o tumor. Mas agora estamos virando o jogo  o inimigo  o corpo em desequilbrio. E a resposta para lidar com o cncer est dentro de voc.
REPORTAGEM / Carol Castro
FOTO / Alex Silva
ILUSTRAO / Bruno Luna
DESIGN / Ricardo Daimio
EDIO / Karin Hueck

     No princpio era a sopa primordial. Uma argamassa de dixido de carbono, amnia e metano boiando no enorme oceano de 3,8 bilhes de anos atrs. No se sabe bem quando, essa mistura comeou a se organizar; formou molculas complexas e longas correntes de aminocidos. Algumas dessas criaes desenvolveram a habilidade de se copiar e se espalhar pelo ambiente, num "crescei e multiplicai-vos" qumico. Em pouco tempo, a gua estava tomada. At a, nada de muito interessante teria acontecido neste pacato planeta rochoso, se algumas dessas molculas no comeassem a sofrer mudanas na hora de se multiplicar. Uma passou a se reproduzir com mais rapidez, outra viveu mais, e uma terceira ainda descobriu uma forma de se proteger do mundo exterior criando uma cpsula protetora ao seu redor. Essa molcula multiplicadora era o tatarav do nosso DNA  e sua cpsula, a membrana celular das nossas clulas. J as pequenas "mudanas na hora de se multiplicar" so as mutaes. So elas que no fim das contas desenvolveram a vida na Terra: fizeram com que essas clulas arcaicas virassem bactrias, fungos, insetos, peixes, dinossauros, aves e, finalmente, ns, macacos pelados de crebro avantajado. Sem as mutaes no estaramos aqui. So a chave da vida e da morte. So elas tambm as culpadas pela mais temida das doenas do nosso tempo: o cncer. 
     O cncer faz parte do processo natural da vida. Na espreita, dentro de ns, os genes que ativam o cncer esperam por mutaes que possam acord-los e desenvolver a doena. 
     Sim, eu e voc temos no nosso DNA alguns genes que podem converter clulas normais em cancerosas, conhecidos como proto-oncogenes. J vieram de nascena. Mas, para o nosso alvio, nem todos despertam. Teoricamente, trs a cinco mutaes em genes especficos j seriam o suficiente para desenvolver um cncer. Mas, em mdia, um tumor maligno  o resultado de 400 mutaes. Ou seja, o resultado de um azar tremendo. 
     Imagine o corpo como uma grande orquestra, equilibrada e harmnica. O cncer seria o equivalente a um dos instrumentos, digamos o violino principal, estar fora do tom. Devagar, aquele som desafinado comea a contaminar todos os outros, que o seguem. O resultado, voc pode imaginar,  uma barulheira descabida  um equivalente sonoro a um tumor.  exatamente assim com o cncer, doena que se espalha sorrateira. Ela comea com uma pequena inflamao, pode ser algum qumico do cigarro ou fuligem, por exemplo, que se aloja no pulmo. Para expuls-lo, nosso sistema imunolgico vai at l lutar contra ele e desencadeia um  processo inflamatrio. Nessa briga, pode ser que alguma clula do corpo leve a pior: a toxicidade do alcatro, por exemplo, pode acordar um oncogene e alterar para sempre seu DNA. Mutante, ela comea a se dividir e multiplicar descontroladamente, muito mais do que as companheiras: uma das caractersticas principais do cncer. Se novas mutaes aparecerem, e uma delas desligar a capacidade natural do organismo de matar as clulas, por exemplo, ferrou: o cncer surgiu. 
     O cncer  a segunda doena que mais mata no mundo (em 2008, quase 14%, ou 7,6 milhes, das mortes foram causadas por ele, segundo a Organizao Mundial da Sade). Mas, se todos ns temos oncogenes, por que s alguns morrem por causa deles? Nos ltimos anos, os tratamentos da doena vm surtindo efeito: nos EUA, de 1950 at 2007, as mortes por cncer diminuram 8%. Os oncologistas brasileiros garantem a cura de at 70% dos doentes em estgio inicial. Mas os ganhos no foram suficientes para anular as perdas. No Brasil, a parcela de culpa do cncer pelas mortes totais passou de 8% em 1980 para 15% em 2010 (j que os tratamentos das outras doenas avana rapidamente). "At agora tivemos um progresso,  inegvel. Mas, se muita gente segue morrendo, precisamos pensar diferente" diz David Agus, oncologista e autor do livro Uma Vida sem Doenas. "Uma forma  entender o cncer como um verbo. Voc no 'tem cncer', voc est 'cancerando'." Se  um verbo, fica fcil explicar por que a incidncia do cncer cresce junto com a expectativa de vida. As clulas do seu corpo no param de se reproduzir  e cada diviso pode gerar alguma mutao e despertar um oncogene. Em uma pessoa idosa, o DNA j foi copiado tantas vezes, que o risco de erros  muito maior. Pense num xerox de um xerox   sempre pior do que a primeira cpia. 
     Se a doena convive com a gente, ela tambm dificilmente ser extinta, ao contrrio do que a humanidade sonhava. Por muito tempo, os cientistas se preocuparam em buscar armas e munies contra os tumores, como se fossem um inimigo externo que precisa ser expulso a qualquer custo. No entendiam que ele faz parte de ns. "Se a doena cresce,  porque o corpo todo est doente, no apenas um rgo", diz Agus. Em outras palavras, o cncer s cresce quando seu organismo falho permite  quando aquele primeiro violino saiu do tom. E  para esse lado que a oncologia comea a olhar: para dentro de voc,  procura do reequilbrio do corpo. 

CORTA AQUI, TIRA ALI 
     Sentada no sof da sala em So Paulo, numa tarde de sbado, Carmela Talarico sentiu um caroo na mama esquerda. Descobriu por acaso, enquanto coava o brao. Aos 56 anos, ela sabia o que aquilo podia ser. Na segunda-feira, correu at o mdico e marcou os exames que confirmariam o bvio: estava com cncer de mama. O tumor no passava de um centmetro, mas ela teria de enfrentar uma operao para retir-lo. Naquela poca, comeo dos anos 80, as ideias de William Halsted, cirurgio americano, ainda influenciavam os oncologistas de todo o mundo. Halsted s viveu at o ano de 1922, quando pouco se sabia sobre o cncer, mas defendia que se devia eliminar o maior nmero possvel de tecidos ao redor dos tumores para no deixar nenhum fragmento para trs, o que possibilitaria o surgimento de um novo tumor. Em outras palavras, Halsted mandava caprichar na faca. 
     Suas cirurgias radicais desfiguravam as pacientes. "Na Europa, um cirurgio tirou trs costelas e outras partes da caixa torcica e amputou um ombro e a clavcula de uma mulher com cncer de mama", conta Siddhartha Mukerjee, oncologista e professor de medicina da Universidade de Colmbia, no livro O Imperador de Todos os Males. 
     Foi essa a cirurgia que Carmela encarou. Felizmente, no foi necessrio amputar o ombro ou a clavcula, mas Carmela perdeu a mama esquerda inteira, o msculo peitoral e os gnglios debaixo do brao. Com quase 90 anos, ainda no mesmo sof e apartamento, sem nenhuma prtese, ela conta feliz: "Se tivesse um tumor do outro lado, faria tudo de novo". Se o cncer tivesse aparecido poucos anos depois, Carmela teria escapado da cirurgia radical. Em 1981, um estudo americano comprovou que a mastectomia radical no apresentava nenhum benefcio em relao  cirurgia simples (retirada de s um pedao da mama) ou cirurgia acompanhada por radioterapia. Anos mais tarde, em 2004, a filha de Carmela, Eliane, tambm se deparou com caroos  mas s precisou retirar um quarto da mama direita, alm de encarar doses de radioterapia e quimioterapia. 
     Remdios quimioterpicos, alis, j existiam h alguns anos. O primeiro deles surgiu, por acaso, durante a 1 Guerra Mundial. Pesquisadores perceberam que pessoas expostas ao gs mostarda apresentavam uma drstica reduo de glbulos brancos, porque ele afeta a medula ssea. Em 1946, cientistas testaram a droga em pacientes com linfomas (cncer das glndulas linfticas). Funcionou por um tempo. Mas logo apareceram as recadas. A primeira droga a curar de verdade o cncer apareceria s em 1960, quando dois pesquisadores conseguiram acabar com um cncer raro na placenta de uma paciente. 
     Qualquer remdio de quimioterapia atinge clulas que se dividem rapidamente  sejam elas normais ou cancerosas.  por isso que pessoas em tratamento perdem o cabelo, por exemplo. E  por isso tambm que essas terapias causam tantos efeitos colaterais. Os primeiros pacientes tratados com cisplatina, nos anos 70, sentiam tanta fraqueza e nusea que vomitavam quase 12 vezes por dia. Chegavam  beira da morte. Hoje, a indstria farmacutica j criou remdios capazes de reduzir os efeitos. Por anos, a estratgia dos cientistas foi testar qualquer tipo de substncia  plantas, qumicos, remdios  para tentar destruir o cncer, como se ele fosse causado por vrus ou bactrias. Demorou para entender que o perigo morava to perto. 

TIRO AO ALVO 
     S em 1976, os pesquisadores se deram conta de que havia uma ligao entre cncer e os defeitos no DNA. At ento, a maioria deles se dedicava  busca de um possvel vrus causador da doena. Peyton Rous, um mdico americano, havia descoberto, ainda no incio do sculo, um retro vrus que causava sarcoma em galinhas (um tipo de tumor que se desenvolve em tecidos, como osso ou msculo). Sem encontrar explicao para o cncer, a ideia do vrus atraiu os pesquisadores  tanto que, em 1950, chegou a ser criado, nos EUA, um Programa Especial de Vrus do Cncer. A busca no deu em nada: raros tipos de cncer so causados por micro-organismos. O que descobriram foi que o tal vrus dos sarcomas das galinhas na verdade no causava cncer. O que ele fazia era transportar para dentro dos animais um gene especfico  e este, sim, alterava as clulas e fazia com que elas comeassem a se dividir loucamente. Como um software que, uma vez instalado, faz a mquina inteira rodar de uma nova forma.
     A descoberta mudou o rumo da histria do cncer. Os dois pesquisadores logo perceberam que genes normais podiam, sob influncia de fatores externos, se transformar em oncogenes. E, se a culpa era deles, talvez fosse possvel desmascar-los e desativ-los. Comeou ento uma nova maneira de encarar a doena. Um dos caminhos foi olhar para as molculas produzidas por ordem dos genes: as protenas. So elas que regem todo o equilbrio do corpo e podem mandar, por exemplo, uma clula se duplicar rapidamente e virar um tumor. "Mudanas no DNA alteram a estrutura das protenas. Assim,  possvel desenvolver remdios que inibem sua ao e corrigir o defeito", explica Luiz Fernando Reis, diretor de pesquisa do Hospital Srio-Libans, em So Paulo. S que a tarefa no  das mais fceis: cada cncer envolve dezenas de "agentes" diferentes para se desenvolver  e estima-se que existam mais de cem tipos diferentes de cncer. 
     Fcil no , mas a americana Barbara Bradfield teve sorte. Em 1990, ela descobriu um caroo debaixo do brao e nos seios. Tinha cncer de mama  e pior: ele j tinha se espalhado nos ndulos linfticos. Enfrentou quimioterapia e perdeu parte da mama. Ainda assim, um ano depois, o cncer reapareceu  e se espalhou em metstase. A morte era questo de tempo. Mas no foi o que aconteceu. Dois pesquisadores estavam trabalhando havia cinco anos para tratar especificamente aquele tipo de cncer, que precisa de uma protena chamada Her-2 para sobreviver. Eles perceberam uma quantidade enorme dessa molcula do lado de fora das clulas cancerosas e encontraram um remdio que parecia desligar sua produo. Durante nove semanas, Barbara recebeu a droga recm- descoberta. O cncer desapareceu, num caso indito. Assim como o cncer, a cura tambm estava dentro dela. Os pesquisadores continuaram com os testes e, em 1998, os EUA autorizaram o uso do medicamento, o Herceptin. Desde ento, apareceram mais de 20 remdios que acertam em cheio as clulas cancerosas, as terapias-alvo  durante muito tempo a grande esperana da luta contra a doena. Ao contrrio da quimioterapia, eles poupam as clulas saudveis e destroem apenas as malignas. 
     Mas 20 ainda  pouco. Uma maneira de aumentar a criao de remdios especficos para cada paciente partiu do prprio David Agus com a ajuda do engenheiro da computao e inventor Daniel Hillis. Eles inventaram um computador capaz de tirar uma sequncia de fotos das protenas do corpo em ao  algo como ouvir, em tempo real, a conversa entre todas as nossas clulas, a msica tocada na nossa orquestra interna. S que fazer isso no  uma tarefa fcil. A cada minuto, as protenas do seu corpo mudam. Se voc tirar uma amostra de sangue agora e ir ao banheiro e tirar outra depois, as molculas sero outras. Pode haver modificaes at mesmo durante a anlise do sangue no laboratrio. Parecia impossvel chegar a resultados confiveis. 
     Depois de seis anos de trabalho, em 2009, a dupla conseguiu. Com conhecimentos sobre robtica, computao paralela e uma tcnica capaz de avaliar as caractersticas individuais de cada molcula, Hillis conseguiu fazer imagens em alta definio das protenas humanas. Uma gota de sangue gera um retrato to complexo que ocupa um espao de 40 gigabytes. Agora a misso  identificar quem  quem e qual o papel de cada protena. (Entenda a complexidade abaixo.) Quando isso acontecer, encontrar remdios que atinjam as clulas malignas de cada tipo de cncer, em cada pessoa diferente, pode ser moleza. A esperana  que possamos desenvolver remdios para 10 mil protenas diferentes, e no s as 500 que pesquisamos hoje em dia. "A terapia-alvo olha s para a doena, para uma clula individual. A protemica olha para a doena e para o entorno dela, para seu metabolismo, para todo o conjunto. Ento d para saber qual remdio funciona melhor para voc", explica Agus. 

TUDO  UM S 
     A cura definitiva para o cncer ainda no existe. E o mais provvel  que ela nunca acontea, deixando os cientistas do planeta inteiro frustrados (e a SUPER tambm: h 12 anos, publicamos que o cncer "estava com os dias contados". Ops). A OMS acredita que o nmero de mortes por cncer, em 2030, chegar a 17 milhes por ano  pouco mais do que o dobro de casos relatados em 2008. Culpa do envelhecimento da populao. O cncer no vai embora, mas tende a virar cada vez mais uma doena crnica, como o diabetes ou a presso alta. Que o diga David Servan-Schreiber, neurocientista francs, professor de medicina da Universidade de Pittsburgh. Em 1992, ele trabalhava em um laboratrio de neuroimagem, quando um dos pacientes agendados do dia no compareceu. Para passar o tempo, ele ento decidiu se enfiar na mquina de ressonncia magntica e se autoanalisar. Descobriu um tumor maligno no crebro. Passou por cirurgia e quimioterapia. Oito anos depois, o cncer voltou. Depois de mais cirurgias e sesses de rdio e quimioterapia, David decidiu procurar alternativas  no com o objetivo de abandonar os tratamentos tradicionais, mas para aumentar suas chances de cura. "Fui procurar na literatura cientfica um jeito de ajudar meu corpo a vencer o cncer. E descobri que o jeito como vivemos e comemos aumenta a incidncia do cncer", disse em um seminrio h alguns anos. Ele mudou a dieta e passou a praticar mais exerccios fsicos. 
     Schreiber no estava sozinho. Outros pesquisadores tambm acreditam que o estilo de vida pode prevenir ou ajudar o organismo a lutar contra o cncer. Uma vida mais saudvel e regrada fortalece o corpo  e, assim, o sistema imunolgico ganha um empurrozinho tambm. "O cncer no  doena de um rgo s,  o sintoma de um desequilbrio geral do corpo", diz David Agus. 
     "Voc diz que sua casa 'est com um problema de gua', quando v uma poa de gua na sala? Ou voc procura onde est o vazamento? No basta secar a gua,  preciso consertar o encanamento. 
 o mesmo com o cncer, envolve todo o sistema", diz Agus. A cincia no sabe listar com preciso todos os fatores que podem causar cncer. Herana gentica tem uma parcela pequena de culpa: de 5 a 10%. J fumar  quase suicdio: 90% dos casos de cncer no pulmo vm do cigarro (dos 10% restantes, quase 4% dos pacientes so fumantes passivos). O lcool tambm aumenta em 5% a incidncia de cncer de mama. E outros vrios pequenos fatores aumentam os riscos de desenvolver algum tipo de cncer: pesticidas e inseticidas, o contato da pele com o alumnio (ateno com o desodorante), a exposio excessiva ao sol, alguns cosmticos (com parabeno, conservante encontrado em xampus e cremes, ou tolueno, presente em esmaltes, por exemplo), produtos de limpeza, e por a vai. 
     Em contrapartida, como voc j est cansado de saber, dormir oito horas por dia, praticar atividades fsicas, comer mais vegetais e frutas, sempre nos mesmos horrios, ajuda a prevenir e enfraquecer o cncer. Sim, definir horrio para cada atividade (principalmente na hora de se alimentar)  to importante quanto o que comer. "Se voc come todos os dias s 13 horas e, por acaso, hoje vai comer s 15 horas, seu corpo passou duas horas sob estresse", diz Agus. "O cncer  uma inflamao. Qualquer tipo de estresse, mesmo emocional, faz voc produzir substncias inflamatrias. Ento, a substncia vai at um rgo qualquer e diz 'inflama'.  um gatilho para desenvolver um problema", completa Daniela Jobst, nutricionista funcional. E  por isso que Agus recomenda todo cuidado para evitar inflamaes: desde vacina contra gripe at aspirinas. "O que inflama hoje no seu corpo pode ter um resultado pior daqui a alguns anos", diz. 
     Mesmo com todos os cuidados e as tentativas de reestabelecer o equilbrio no organismo, David Servan-Schreiber perdeu a luta para o cncer. Em 2010, os tumores reapareceram e, um ano depois, o corpo do cientista no resistiu. David nunca abandonou os tratamentos tradicionais (cirurgia, quimioterapia e radioterapia). Mas ele superou as expectativas. Em geral, aps o diagnstico de tumores malignos no crebro, apenas 15% das pessoas vivem mais de cinco anos. Menos de 10% vivem dez anos ou mais. O cncer precisou de 20 anos para derrubar David. No d para falar em derrota. 
     A tendncia  que isso acontea para todos os pacientes no futuro: a qualidade de vida durante o tratamento aumente, a reincidncia diminua e as chances de cura cresam. Vamos viver mais e melhor.  isso que prometem os tratamentos personalizados e os que entendem o cncer como um pedao natural de ns. Pode ser que um copo de vitamina C seja bom para voc e pssimo para mim. Vai ser possvel tambm descobrir a presena de tumores por meio de um simples exame de sangue. A, sim, manteremos o equilbrio completo do seu corpo e, se fizermos tudo direitinho, preveniremos a doena  voc vai saber exatamente como restaurar as foras que trabalham contra seu corpo.  como a medicina oriental, que h sculos entende e trata o organismo como um todo. Por todo esse tempo, estvamos olhando para o lugar errado. Mas agora estamos acertando a mira. 

CNCER
Mais de 100 tipos.
60 rgos podem desenvolver cncer
10% dos casos so hereditrios
90% so associados a fatores ambientais
Entre quem tem cncer hoje 50% estaro vivas daqui a 5 anos. Mais de 40% daqui a 10 anos.

5 HBITOS DE RISCO
Obesidade
Falta de frutas e vegetais
Falta de atividade fsica
Cigarro
Uso de lcool

OS MAIS COMUNS
12,7% pulmo
10,9% mama
9,8% colorretal
7,8% estmago
7,1% prstata

OS QUE DEIXAM MAIS SOBREVIVENTES
Mama  Prstata   Colorretal  tero

CNCER E IDADE
CNCER E IDADE
O risco de desenvolver cncer aumenta com a idade. 63% dos pacientes de cncer tm mais de 65 anos (desses, 36% tm mais de 75 anos).

EM CADA TIPO
Quantos sobrevivem ps-diagnstico em 1971 e 2001
Pulmo
1971: 1 ano 14%; 5 anos 4%; 10 anos 4%.
2001: 1 ano 25%; 5 anos 7%; 10 anos 5%.

Mama
1971: 1 ano 82%; 5 anos 52%; 10 anos 41%.
2001: 1 ano 96%; 5 anos 81%; 73 anos 5%.

Prstata
1971: 1 ano 65%; 5 anos 31%; 10 anos 21%.
2001: 1 ano 91%; 5 anos 71%; 10 anos 55%.

??????
1971: 1 ano 33%; 5 anos 12%; 10 anos 8%.
2001: 1 ano 63%; 5 anos 42%; 10 anos 32%.

AMBIENTE EXTERNO
Reequilibrar o ambiente doente ao redor de um tumor pode ajudar a combat-lo.
Uma equipe do Berkeley Lab, nos EUA, liderada pela pesquisadora Mina Bissell, investigou as diferenas entre clulas mamarias normais e tumorosas. E descobriu que o ambiente ao redor das clulas ajudava a determinar se elas deveriam fazer leite materno (estado normal) ou crescer desenfreadamente.
O que eles perceberam foi uma enorme quantidade de uma protena chamada TGF-Beta 1 ao redor das clulas tumorosas. Se pudessem reduzir essas protenas, ser que a clula danificada se transformaria numa normal outra vez?
Deu certo. Analisar o ambiente em volta da clula tumorosa mostrou qual protena estimulava o crescimento do cncer. E anul-la foi suficiente para reverter o processo da doena.

DIGA XIS
Entenda a anlise de todas as protenas do seu corpo. Com este retrato,  possvel saber tudo o que acontece no corpo  ver como seu organismo responde a cada remdio (ou comida, ou substncia cancergena) e se algo vai mal l dentro. O excesso de uma determinada protena pode constatar que algo est errado com seu estmago, por exemplo.
1- Uma gota de sangue pode gerar um retrato de todas as protenas do corpo.
2- Computadores medem a distribuio, o tamanho e a ocorrncia de cada uma delas em resposta a um remdio especfico.
3- Assim, d para comparar o retrato proteico de duas pessoas diferentes e traar o perfil de cada uma.
4- Se duas pessoas tomam um remdio e respondem a ele de forma diferente, j sabemos qual protena  a responsvel.
Comparando os dois exames ao lado, d para perceber que um mesmo tratamento liberou protenas diferentes em Joo e em Maria  ou seja, tambm ser mais eficiente em um do que em outro. Um simples exame de sangue poder detectar isso. E ser possvel encontrar um medicamento especfico para cada doena, em cada pessoa.

PARA NO DAR SORTE AO AZAR
No h uma frmula mgica  e, sim, pequenas atitudes que podem ajudar a combater a doena.
ADOTE UM CACHORRO - Ele vai ajudar a manter uma rotina. Voc ser obrigado a lev-lo para passear ou a dar comida todos os dias no mesmo horrio. Comer, dormir e fazer exerccios fsicos sempre no mesmo horrio deixa seu corpo menos estressado. 
NO FIQUE MUITO TEMPO SENTADO - E to prejudicial ao corpo quanto fumar. Passar horas sentado muda todo o metabolismo de um corpo feito para ficar em p: aumenta as taxas de colesterol no sangue e presso arterial.
TOME VACINA CONTRA A GRIPE - A gripe espalha pelo corpo diversas inflamaes e, para venc-las, seu sistema precisa de muito esforo. Assim, seu corpo sofre um imenso desgaste, envelhece mais rpido  e abre possibilidade para algo pior depois. 
USE SAPATOS CONFORTVEIS - Esquea o salto alto e o bico fino. Sapatos confortveis so a melhor maneira de evitar inflamaes nas articulaes e coluna lombar.
PREFIRA ORGNICOS E CONGELADOS - Orgnicos so sempre melhores. Mas, se voc compra verduras no mercado, prefira os congelados. No momento em que saem do solo ou das rvores, os alimentos frescos comeam a perder os nutrientes. No caminho at a venda, quase tudo j se foi.

PARA SABER MAIS
O Imperador de Todos os Males, Siddhartha Mukherjee, Companhia das Letras, 2012.
A Vida sem Doena, David. B. Agus, Intrnseca, 2013.
Anticncer: Prevenir e Vencer Usando Nossas Defesas Naturais, David Servan-Schreiber, Fontanar, 2011


2. CINCIA  MARTE 2018
J faz 43 anos que o homem pisou na Lua. Depois disso, parecemos ter desistido de explorar o espao. Mas grupo de visionrios quer ressuscitar a corrida espacial  e levar dois humanos a Marte daqui a cinco anos. Conhea os bastidores da misso mais ambiciosa desde o Projeto Apollo. E veja por que ela pode dar certo.
REPORTAGEM / Pieter Zalis
ILUSTRAO / Samuel Rodrigues
DSGN / Rafael Quick
EDIO / Bruno Garattoni

     "Eu acredito que este pas deva se comprometer a atingir o objetivo, antes do final desta dcada, de levar um homem  Lua. No h nenhum projeto mais impressionante, ou mais importante (...). E nenhum to difcil." Com esse discurso, em 25 de maio de 1961, John Kennedy conclamou o Congresso e a populao dos EUA a apoiar o Projeto Apollo  que, oito anos depois, seria responsvel por uma das maiores realizaes da histria da humanidade.  
     O prximo passo na conquista do espao, chegar a Marte, parecia apenas questo de tempo. Em 1965, os EUA enviaram, com sucesso, uma sonda at o planeta vermelho. Mas a misso tripulada no aconteceu. A URSS acabou, a corrida espacial murchou, a Nasa foi abalada por dois grandes acidentes com nibus espaciais e ficou espremida por oramentos cada vez menores. Hoje, sua melhor previso  enviar astronautas a Marte em 2035. Mais duas dcadas de estagnao e frustrao. Mais uma gerao  espera. 
     Ou no. O projeto Inspiration Mars, que rene cientistas, engenheiros, empresas e investidores, pretende enviar uma misso tripulada a Marte daqui a menos de cinco anos, em janeiro de 2018, quando a Terra e o planeta vermelho estaro alinhados. Graas ao alinhamento, ser possvel ir e voltar em menos de um ano e meio, um prazo considerado seguro para a sade humana (mais sobre isso daqui a pouco) e menos da metade do tempo que a viagem levaria normalmente. Segundo seus organizadores, a viagem em 2018 no  apenas possvel, ela  necessria  se perdermos a chance, os planetas s voltaro a se alinhar em 2031. O idealizador da misso  o americano Dennis Tito, de 72 anos. Na dcada de 1960, ele trabalhou na Nasa escrevendo programas de computador que calculavam a trajetria de uma possvel misso a Marte. Depois, criou softwares que analisam padres do  mercado financeiro  e hoje so usados pelos 600 maiores fundos de investimento do mundo, que somados controlam US$ 12,5 trilhes. Tito ficou muito rico. To rico que, em 2001, pagou US$ 20 milhes para se tornar o primeiro turista espacial: viajou numa cpsula Soyuz at a Estao Espacial Internacional, numa misso que durou sete dias. 
     Ele diz que vai pagar todos os custos do projeto Marte nos primeiros dois anos (at 2015), mas a partir da precisar de doaes e parcerias com outras empresas. A misso ter a consultoria tcnica da Nasa, mas ser toda conduzida pelo setor privado. A empresa americana SpaceX, criada pelo empresrio Elon Musk (o mesmo que fabrica o supercarro eltrico Tesla), fornecer o foguete e a cpsula. O foguete, que se chama Falcon Heavy, deve voar pela primeira vez ainda este ano. Ele ir acelerar a cpsula (que j foi testada com sucesso e fez uma viagem  Estao Espacial Internacional) a 17.500 km/h, dando impulso para que ela chegue at Marte. Ou seja: depois que se desconectar do foguete, a cpsula far o resto da viagem no embalo, aproveitando o empurro inicial. Ela at possui foguetes prprios, mas so pequenos  e s servem para pequenas correes de rota.
     A cpsula reciclar parte de sua gua e oxignio, usando tecnologias que j so empregadas na Estao Espacial Internacional (ISS). Cerca de 75% da urina e da gua usada para higiene pessoal, por exemplo, ser filtrada e reaproveitada. Alm disso, parte do estoque de gua poder ser usado para produzir oxignio. No ir faltar nada para os astronautas.
     Mas eles enfrentaro alguns problemas, a comear pela radiao espacial. Quando sarem da atmosfera terrestre, estaro expostos a partculas solares e raios csmicos, que podem causar mutaes no DNA, alteraes celulares e problemas no sistema nervoso central. Toda viagem espacial  assim. Mas, como a misso at Marte  muito mais demorada, os astronautas iro receber muito mais radiao. A tripulao ter de saber a quais riscos est se submetendo, afirma o mdico-chefe da misso, Jonathan Clark. Ele trabalhava na Nasa e perdeu a esposa, a astronauta Laurel Clark, na exploso do nibus espacial Columbia, em 2003.
     O Sol estar calmo em 2018. Ele estar no momento menos ativo dentro do seu ciclo natural, que dura 11 anos, explica Helio Jaques Pinto, professor de astronomia da UFRJ. Mesmo assim, durante a viagem at Marte, estima-se que os tripulantes recebam 1,2 sievert de radiao  o equivalente a fazer 12 mil exames de raio-X. E pode ser mais ainda. At hoje, todas as misses americanas excederam os limites de radiao, diz o cientista Francis Cucinotta, da Nasa.
     Alm de elevar a probabilidade de cncer, nveis muito altos de radiao podem ter efeitos imediatos, como dores de cabea e mal-estar. Precisamos minimizar os efeitos na performance da tripulao, diz Clark. Por isso, a nave receber um escudo reforado. As paredes da cpsula tero fundo falso e sero preenchidas pelos estoques de gua e comida, boas blindagens contra a radiao. Conforme esses estoques forem sendo consumidos, eles sero substitudos pelas fezes dos astronautas (que devero embal-las em sacos plsticos e colocar esses sacos em compartimentos nas paredes da cpsula).
     Tambm haver problemas psicolgicos para enfrentar. No  fcil passar quase um ano e meio trancado num espao pequeno. Entre 2007 e 2011, seis astronautas ficaram 520 dias confinados em uma nave espacial de mentira na Rssia. O objetivo era simular uma viagem a Marte e saber como eles reagiriam. Quatro dos seis apresentaram distrbios. Um deles comeou a dormir cada vez menos, e teve problemas de memria e raciocnio. Outro comeou a viver em dias com 25 horas de durao e se afastou dos colegas. Tambm houve casos de depresso. Por isso, a misso pretende enviar um casal  um homem e uma mulher, que realmente sejam casados na vida real. Alm de o companheirismo ajudar, as dificuldades de privacidade comuns em viagens espaciais tambm podero ser superadas, diz o psiquiatra Mathias Basner, da Universidade da Pensilvnia, que estudou a misso russa.
     Apesar da linguagem sutil, no  difcil perceber do que ele est falando: sexo. Segundo os organizadores da misso, relaes sexuais estaro liberadas  o que poder resultar no primeiro ato sexual no espao (a Nasa afirma que nunca houve algo do tipo em seus voos). Mas depender da vontade e da tcnica do casal. A falta de gravidade afeta a circulao sangunea, o que pode dificultar a ereo do pnis, e  difcil controlar os movimentos do corpo. O casal precisar treinar e encontrar um espao para se fixar, afirma John Millis, professor de fsica e astronomia da Universidade de Anderson (em Indiana, EUA). No ser fcil conservar o desejo. Porque no ser fcil fazer algo muito importante para se manter atraente: tomar banho. Enquanto a Estao Espacial Internacional tem uma espcie de chuveiro (um tubo dentro do qual o astronauta se lava com gua e sabo), na cpsula marciana ser necessrio se virar com esponjas.
     Os nomes dos astronautas no foram definidos, mas os favoritos para a viagem so Taber MacCallum, diretor-tcnico da misso, e Jane Poynter, desenvolvedora de sistemas de tripulao e suporte de vida. Eles so casados, tm experincia no setor espacial e em confinamento tambm: entre 1991 e 1993, participaram do projeto Biosphere 2, em que um grupo de pessoas ficou dois anos trancado num ambiente autossuficiente, que tentava recriar o ecossistema da Terra.
     Ao chegar a Marte, a cpsula ir fazer um sobrevoo de aproximadamente dez horas. Ela no ir pousar. Seria preciso levar mais combustvel e mais um foguete para decolar de Marte. A misso ficaria bem mais complexa em estrutura e dinheiro, tornando-a impraticvel, diz Antonio Bertachini, diretor de mecnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). E tambm h o fator cautela  antes de tentar um pouso,  vital fazer uma misso de sobrevoo. Foi assim com a Lua e, se tudo der certo, ser assim com Marte. Precisamos fazer misses para ganhar experincia. Temos que aprender antes de pousar em Marte, afirma Dennis Tito.
     Mesmo no pousando, a cpsula corre um risco considervel nessa etapa da viagem, pois precisa se aproximar de Marte num ngulo exato. Do contrrio, ela pode ficar perdida por l, sem conseguir voltar  Terra [veja no infogrfico]. Os astronautas morreriam sufocados aps alguns meses, com o fim do suprimento de oxignio.  o tipo de risco que os EUA costumavam ser capazes de assumir. Ns no fazemos mais isso, diz Taber.
A misso Inspiration Mars  uma prova da audcia da indstria americana e do esprito aventureiro dos cidados americanos, contemporiza o porta-voz da Nasa, David Steitz. Ele coloca panos quentes porque, na verdade, a agncia est, sim, envolvida com o projeto. Ela no vai assumir nenhum risco  mas ir fornecer uma parte crucial da tecnologia necessria. Se tudo der certo, a nave dar a volta em Marte e comear o caminho de volta para a Terra. O retorno dever ser tranquilo, exceto pela ltima parte: a reentrada na atmosfera terrestre. Ningum sabe exatamente como ser esse processo, que ainda est sendo planejado. A melhor opo seria mergulhar de uma vez na atmosfera. Mas a cpsula chegar muito depressa, a cerca de 51 mil km/h.  o dobro da velocidade de reentrada do nibus espacial, por exemplo.
     Por isso,  possvel que ela tenha de desacelerar primeiro. A nave ficaria at dez dias sobrevoando a Terra, para perder velocidade aos poucos, e s ento faria seu mergulho final.
     Seja qual for a estratgia, a nave sofrer atrito contra a atmosfera terrestre, e isso ir produzir uma quantidade enorme de calor  a temperatura na superfcie externa do nibus espacial chegava a 1.650 graus centgrados, e na cpsula marciana dever ser ainda maior. Tudo pode fritar, lembra Bertachini, do INPE. E  a que a Nasa entra: ela ir fornecer uma nova tecnologia de escudo trmico para proteger a nave. Mas h quem duvide que a Nasa seja capaz de desenvolver a tecnologia necessria, e em to pouco tempo  at porque ela tem um retrospecto ruim em escudos trmicos. Foi justamente uma falha nesse isolamento que explodiu o nibus espacial Columbia, em 2003.
Falta liderana  Nasa, diz Dennis Wingo, presidente da empresa de tecnologia espacial SkyCorp e principal crtico da misso a Marte em 2018. Na opinio dele, o foguete Falcon Heavy no ser suficiente para empurrar a cpsula, que  pesada demais e precisaria de pelo menos dois foguetes. Enquanto eles ignorarem essa falha, estaro perdendo tempo e no haver sucesso.  simplesmente impossvel fazer o que eles pretendem. Wingo tambm critica a rota da misso. Segundo ele, existe um caminho que passa por Vnus e depois segue at Marte e seria mais curto. Por que no tentar conhecer dois planetas em vez de um?, pergunta. Os organizadores da misso dizem que vo pensar nisso, mas no devem mudar de estratgia.
Nossa misso ser a nova Apollo 8, diz Clark, se referindo  primeira misso tripulada a sobrevoar a Lua, em 1968. Se a ida a Marte der certo, ir encantar a humanidade  e poder marcar o comeo de uma nova era de explorao do Cosmos. Eu vou ficar bem mais pobre depois dessa misso. Mas os meus netos vo ficar mais ricos. De inspirao, diz Tito. 

COMO IR FUNCIONAR A VIAGEM A MARTE

POR QUE 2018?
Por que a Terra e Marte estaro em posies favorveis, que permitiro ir ao planeta vermelho e voltar no menor tempo possvel: 501 dias. Alm disso, a atividade solar estar no ponto mais baixo de seu ciclo natural, que dura 11 anos. Isso ajudar a reduzir a exposio dos astronautas  radiao.

LANAMENTO
5/01/2018
O foguete queimar durante 340 segundos, consumindo 50 toneladas de combustvel. Ele atingir uma velocidade de 17.500 km/h  impulso suficiente para que a cpsula chegue at Marte.

FOGUETE: FALCON HEAVY
CAPACIDADE 53 toneladas de carga. O dobro de qualquer outro modelo atual. O Falcon foi criado pela empresa americana SpaceX  deve ser testado pela primeira vez em 2013.
Comprimento 69,2 metros. Largura 3,66 metor

O QUE ELES VO LEVAR
Suprimentos e mantimentos, em quilos
Papel 77
Panos 13
Prod. De Higiene Feminina 8
Produtos de limpeza 56
Papel Higinico 28
Comida 1.384
Oxignio 897
gua 2.235

CPSULA: DRAGON
PESO 10 toneladas
ESPAO INTERNO 16 metros cbicos de espao livre para a tripulao, o equivalente a um quarto pequeno. Tambm foi desenvolvida pela SpaceX e j foi testada com sucesso (fez uma viagem  Estao Espacial Internacional em maro).

RECICLAGEM
Possui sistemas que permitem reaproveitar gua (75% da urina e da gua usada para higiene) e oxignio. A tecnologia   mesma usada na Estao Espacial Internacional.

ESCUDO ANTIRRADIAO
As paredes sero preenchidas com gua, mantimentos e at as fezes dos astronautas (que absorvem a radiao csmica).

OS TRIPULANTES
Sero dois: um homem e uma mulher. Devero ter cerca de 50 anos de idade  pois durante a viagem recebero muita radiao, o que eleva o risco de cncer e seria perigoso demais para uma pessoa jovem. E sero casados  pois se acredita que isso v facilitar o convvio durante a viagem.

MDULO INFLVEL: BIGELOW.  um compartimento extra, que serve para guardar mantimentos e liberar espao na cpsula.
Comprimento: 4,4 metros
Dimetro: 2,54 metros
VOLUME 11,5 metros cbicos
MATERAIL  KEVLAR. O mesmo material de coletes  prova de bala.

SOBREVOO
21/10/2018
A cpsula ficar dez horas sobrevoando Marte, a aproximadamente 160 quilmetros do solo. A gravidade far com que a nave faa uma curva  e seja arremessada de volta  Terra.

VOLTA  TERRA

FAZENDO A CURVA
A nave ter de se aproximar de Marte num ngulo exato. Se fizer uma curva muito fechada, entrar na rbita do planeta  e ser difcil sair. Se a curva for muito aberta, ela passar reto  e no ter como voltar  Terra.

DISTNCIA DA TERRA: 65.000.000 Km
DISTNCIA DE MARTE: 160 Km

A RADIAO
Sem a proteo oferecida pelo campo magntico da Terra, a tripulao ser exposta a altos nveis de partculas solares e raios csmicos. Eles iro absorver um total de 1,2 Sievert  o mximo que uma pessoa pode receber durante a vida. O risco de cncer subir, e o homem poder ficar infrtil.

E SE UM DELES MORRER? 
Se um dos tripulantes morrer, isso ser um problema para o outro  pois no  possvel abrir a porta da cpsula com segurana sem despressuriz-la (isso mataria o outro tripulante). Os organizadores da misso dizem que ainda no definiram o que seria feito. Uma possvel soluo seria colocar o cadver no Mdulo Inflvel e desconect-lo.

A CAMINHO DE CASA
Aps ser catapultada por Marte, a cpsula segue em direo  Terra.
23/11/2018
DISTNCIA DA TERRA: 139.000.000 Km
DISTNCIA DE MARTE: 42.900.000 Km

VOLTA  ATMOSFERA
05/2019
A cpsula estar a 51 mil km/h (quase o dobro da velocidade de reentrada do nibus espacial, por exemplo). Por isso, ficar at dez dias tangenciando a atmosfera terrestre para desacelerar aos poucos. Quando a velocidade chegar a 27 mil km/h, a nave far o mergulho final na atmosfera.

POUSO
21/05/2019
Aps reentrar na atmosfera terrestre, a cpsula abrir um para-quedas para ajudar na desacelerao. Ela cair no mar.

PARA SABER MAIS
Feasibility Analysis for a Manned Mars Free-Return Mission in 2018 
Dennis Tito e outros, 2013
abr.ioINzl


3. SADE  A QUMICA DA ACADEMIA
Observe esses rapazes. Eles tinham peso, altura e alimentao iguais e comearam a malhar juntos, cinco vezes por semana. Um no tomou nada, outro usou suplementos e o terceiro optou por anabolizantes. Veja o que aconteceu no corpo de cada um deles no curto, mdio e longo prazos.
INFOGRFICO / Cludia de Castro Lima, Felipe van Deursen, Jorge Oliveira e Pedro Henrique Ferreira

? VAI  ACADEMIA E NO CONSOME SUPLEMENTO NEM ESTEROIDES

MSCULOS: Resultados visveis demoram. Em dois anos, ganha-se o mesmo que em dois meses com o uso de anabolizantes.
CORAO: Consumo de oxignio mximo (VO2) sobe at 31%. Quanto maior a taxa, menos riscos para o rgo.

Aumento de HDL (colesterol bom) em %
2 meses: 5%
1 ano: 10%
2 anos: 20%

Reduo da gordura heptica em %
2 meses: 13%
1 ano: 30%
2 anos: no h estudos a respeito

FGADO
Malhar diminui as chances de esteatose, doena causada pelo acmulo de gordura no rgo.

PELE
Exerccios melhoram a atividade de antioxidantes, que combatem o  envelhecimento da pele.
2 meses: nenhuma alterao
1 ano: pele bonita
2 anos: pele mais bonita

ENERGIA
Aumenta naturalmente  medida que se treina, pois a capacidade de transformar oxignio em resistncia cresce.

Ganho de massa em Kg
2 meses: 1 kg
1 ano: 3 kg
2 anos: 5 Kg

Resistncia em %
2 meses: 6%
1 ano: 38%
2 anos: 58%

FUNO SEXUAL
Maior produo de serotonina, substncia relacionada a prazer, e de endorfina, neurotransmissor do bem-estar.
2 meses: aumenta o desejo
1 ano: disposio e funo ertil melhoram
2 anos: no h estudos a respeito

MALHAR FAZ BEM PARA O CORPO TODO, NO S OS MSCULOS.

? VAI  ACADEMIA E CONSOME SUPLEMENTOS (WHEY PROTEIN E CREATININA)

MSCULOS: Suplementos aceleram o crescimento dos msculos. E o whey d sensao de saciedade, o que diminui a ingesto de calorias dirias
CORAO: o WHEY REDUZ A PRESSO SANGUNEA EM 5% EM DOIS MESES. Isso diminui as chances de problemas

Aumento de HDL (colesterol bom) em %
2 meses: 6%
1 ano: 20%
2 anos: no h estudos a respeito

Reduo da gordura heptica em %
2 meses: 33%
1 ano: 50%
2 anos: no h estudos a respeito

FGADO
Whey reduz a gordura. Mas, se tomado sem acompanhamento, pode sobrecarregar o rgo. E tambm os rins

PELE
O whey tem substncias que ajudam a reduzir a acne e a rejuvenescer a pele.
2 meses: reduo de espinhas
1 ano: melhora elasticidade
2 anos: no h estudos a respeito

CABELO
Melhora com whey. Mas em alguns casos h calvcie, pois aumenta a testosterona, que no cabelo se quebra em DHT, hormnio ligado  doena.
2 meses: fios mais sedosos
1 anos: risco de queda dos fios

ENERGIA
A creatina acelera a liberao de energia de reservatrios temporrios do corpo, as molculas chamadas ATP.
Ganho de massa em Kg
2 meses: 2 kg
1 ano: 5 kg
2 anos: 8 Kg

Resistncia em %
2 meses: 14%
1 ano: 53%
2 anos: 85%

FUNO SEXUAL
Whey tem tirosina, ligada  excitao, e arginina, que aumenta a libido e melhora a circulao  bom para o pnis. 
2 meses: aumenta o desejo
1 ano: aumenta ao da testosterona
2 anos: no h estudos a respeito

OS GANHOS SO RPIDOS COM SUPLEMENTOS, MAS  PRECISO ORIENTAO NUTRICIONAL.

? VAI  ACADEMIA E USA ESTEROIDES
MSCULOS: Anabolizantes aceleram o fortalecimento do msculo e fornecem mais oxignio e energia s clulas, o que acelera o processo.
CORAO: As paredes do rgo tendem a afinar, dando sensao de fraqueza. E pode haver insuficincia cardaca.

Queda de HDL (colesterol bom) em %
2 meses: 20%
1 ano: 27%
2 anos: 27%

O que pode ocorrer no fgado:
2 meses: degenerao e fibrose
1 ano: cistos
2 anos: tumores

FGADO
Anabolizantes orais podem intoxicar o rgo. E os rins tambm sofrem. H casos at de transplante.

PELE
Surgem acne, pois a pele fica oleosa, e estrias, porque os msculos crescem muito rpido.
2 meses: espinhas
1 ano: pele oleosa
2 anos: estrias

CABELO
 o mesmo processo do whey, mas aqui a calvcie  quase certa. E tambm h queda de cabelo em mulheres
2 meses: calvcie gentica inicia
1 anos: a queda se acentua
2 anos: a calvcie  irreversvel

ENERGIA
Maior criao de clulas que levam oxignio aos tecidos, o que permite treinos mais intensos.
Ganho de massa em Kg
2 meses: 5 kg
1 ano: 10 kg
2 anos: 14 Kg

Resistncia em %
2 meses: 14%
1 ano: 78%
2 anos: 138%

FUNO SEXUAL
Os testculos tendem a atrofiar (mas o pnis no). Em mulheres, a ovulao diminui, a voz pode engrossar e o rosto ganhar pelos.
2 meses: o corpo deixa de produzir testosterona
1 ano: quantidade de esperma pode ser reduzida
2 anos: diminuio do desejo

? BOMBAS TM MUITO MAIS CONTRAS DO QUE PRS

O QUE  ISSO?
Pequeno glossrio do mundinho da academia.
CREATINA - Aminocidos que reconstroem a ATP, molcula que d energia aos msculos. Junto com o whey,  o suplemento mais tomado no mundo.
WHEY PROTEIN - Protena do soro do leite, a fonte nutricional com o maior valor biolgico (escala que determina o nvel de aproveitamento de uma protena pelo organismo).
ESTEROIDES - Anabolizante, bomba. Substncias sintticas que imitam a testosterona. Aceleram o crescimento muscular. Uns so proibidos, outros precisam de receita.

IMPACTO NO CORPO
Como exerccios, suplementos e esteroides nos afetam.
MSCULOS - Eles so fibras de protenas que, ao malhar, quebram. Depois, so reconstrudas mais grossas. E o maior combustvel dessa fabricao de protenas  a testosterona.
RESISTNCIA - Depende da capacidade de transportar oxignio do sangue para os tecidos e da capacidade dos msculos usarem esse oxignio para produzir energia.
PELE - O excesso de exerccios acelera o envelhecimento. Mas, na dose certa, ela fica mais elstica e saudvel.
FGADO - Controla o nvel de glicose, faz a bile (que participa da digesto de gordura), estoca ferro e cobre, essenciais para a oxigenao dos tecidos, e sintetiza 90% das protenas essenciais. Ou seja, prejudic-lo significa afetar todo o corpo.
CABELO - A no ser que voc pegue peso com o topete, no h ligao entre o cabelo e os exerccios fsicos. Mas h, sim, com as substncias vistas nas academias (e tratadas aqui).
FUNES SEXUAIS - Praticar esporte  timo para a libido deles e delas. Aumenta o condicionamento fsico (o que quer dizer mais tempo transando) e ajuda a melhorar a autoestima.
CORAO - Ele envia sangue rico em oxignio para as clulas, para que elas possam funcionar. E pode ser treinado: quanto mais exerccios fazemos, mais forte nosso msculo cardaco.

Os resultados so baseados nas melhores performances obtidas em estudos cientficos e casos clnicos. Suplementos s devem ser tomados por indicao do mdico ou nutricionista. O whey protoin analisado  do tipo isolado. Esteroides so vendidos em farmcias com receita mdica para tratamento de pessoas com queda de produo de testosterona. Mas, na prtica, muita gente compra ilegalmente na internet ou em lojas de produtos veterinrios. As variaes se referem  situao em que os sujeitos se encontram no primeiro ms de treino. Quando no especificados, exceto no aumento da massa muscular, menor em mulheres, os efeitos so os mesmos em homens em mulheres.

Fontes: Ana Carolina C. Andretti, docente de cursos de ps-graduao em nutrio e doutoranda em medicina; Rafael Bracca, professor de nutrio esportiva da FMU e gerente tcnico da Integralmedica; Turbio Leite Barros, professor da Unifest.


4. ZOOM  AI WEIWEI  UM ARTISTA DO TAMANHO DA CHINA
Ele esconde mensagens sobre a China de hoje em obras grandiosas. Entenda o que o maior artista chins da atualidade quer dizer.
REPORTAGEM Luiz Romero
DESIGN Ricardo Davino
EDIO Cristine Kist

Ai Weiwei  artista, arquiteto, fotgrafo e blogueiro. O principal:  artista, arquiteto, fotgrafo e blogueiro na China, que h algumas dcadas trata pensamento crtico com fora bruta. No caso de Weiwei, a priso, os interrogatrios e os espancamentos que recebeu em 2011 foram o jeito encontrado pelo governo de avisar que no gostava das polmicas criadas pelo artista. Ele (que ajudou a conceber o famoso estdio Ninho de Pssaro) chegou a dizer que as Olimpadas representaram uma falsa imagem de modernidade e tentaram esconder os problemas sociais da China. Mas, muito mais do que pelas declaraes  imprensa, Weiwei ficou conhecido por usar as vias indiretas da arte contempornea para criticar seu pas.

CCLICA E
CATICA
Weiwei pega emprestado o readymade do francs Marcel Duchamp e aplica a tcnica  China do nosso tempo. Ele tira as bicicletas dos chineses das ruas, assim como Duchamp tirava os mictrios dos banheiros, e coloca numa sala de museu. Com isso, produz "uma estrutura de movimento e abstrao que simboliza a forma pela qual a sociedade da China est mudando", como explica o Museu de Belas Artes de Taipei, o primeiro do pas a fazer uma exposio individual do artista, em 2011.

ARRUINADO
Em 2007, o chins construiu uma estrutura toda feita com portas de casas retiradas de construes antigas destrudas para dar lugar ao crescimento da nova China. A escultura ruiu devido a uma tempestade.  Weiwei no se importou.  Disse  imprensa: "Veio de runas e agora  uma runa".

MAR DE SEMENTES
Como Andy Warhol fazia com as latas de sopa Campbell, Weiwei gosta de alinhar objetos e criar instalaes grandiosas. Em 2010, ele e outros 1.600 artistas chineses pintaram  mo 100 milhes de microesculturas de porcelana de maneira que elas parecessem sementes de girassol. Depois, as "sementes" foram espalhadas no cho na galeria Tate Modern, em Londres. Durante a Revoluo Chinesa, Mao Ts-Tung era comparado ao sol, e o povo, aos girassis (porque olhava para o mestre com admirao). Weiwei tambm relacionou a obra com o Twitter, um aglomerado de ideias construdo por contribuies individuais. Ele mesmo, alis, atualiza com frequncia seu perfil na rede social. Siga a: @aiww (e caso voc no fale mandarim, j abra o Google Tradutor na janela ao lado). 

VASO ENLATADO
Na dcada de 1990, Weiwei era um artista bvio: pegava vasos chineses extremamente valiosos e gravava neles a marca mais americana do mundo. Conseguia ser ainda mais claro em obras como Deixando Cair uma Uma da Dinastia Han, uma srie de trs fotos que mostra exatamente aquilo que o ttulo anuncia. Depois ele comeou a investir na sutileza e apostar em criaes que exigiam algum esforo do interlocutor para serem compreendidas.


5. ATUALIDADES  NO LIMITE DO BRASIL
Pegamos os nossos 24.253 km de fronteiras e os esticamos em uma linha reta. Assim, fica possvel entender o que acontece em cada canto desse Brasilzo: h invases de terra, trfico de drogas  e cenrios de tirar o flego.
INFOGRFICO Karin Hueck, Fabricio Miranda, Otvio Cohen, Luiz Iria e Marcelo Garcia

EXTENSO DAS FRONTEIRAS
70% de terra  16.886 km
30% de mar  7.367 km

1- VIVE LA FRANCE
A fronteira Brasil-Frana (a Guiana Francesa) tem 730 km de extenso. Por muito tempo, era comum brasileiros procurarem trabalho na Guiana para receber em euros, mas o controle das fronteiras agora est mais rgido.

2- AS MINAS P
S na fronteira do Par com a Guiana e o Suriname, h cerca de 35 mil garimpeiros ilegais concentrados. Para produzir um quilo de ouro, eles chegam a usar um quilo de mercrio, material altamente poluente.
1,6 milho de km2  a rea amaznica que contm minrios explorveis.

3- TERRA DE NDIO
H 618 terras indgenas identificadas no Brasil, 180 delas esto na faixa de fronteira - e 45 tribos vivem em mais de um pas. Quando um territrio indgena est espalhado por duas naes, seus habitantes podem passar de um pas para o outro livremente.
Terras indgenas mais populosas nas fronteiras:
Raposa Serra do Sol  RO: Ingarik, Makuxi e outros trs povos. 19,9 mil.
Alto Rio Negro  AM: Hupde, Bar, Nadeb e outros 17 povos. 19,7 mil.
Yanomami  AM/RO: povos Uanomami e Yekuana. 19,3 mil.
vare I  AM: \ticuna. 18 mil.

4- ALTOS PICOS
Os dois pontos mais altos do Brasil esto na Serra do Imeri, na divisa do Amazonas com a Venezuela.
Pontos altos do Brasil:
Pico da Neblina  AM: 2.993m
Pico 31 de Maro  AM: 2.972m
Pico da Bandeira  AM: 2.892m
Pico da Mina  MG: 2.798 m

5- MATA A MATA
A Amaznia Legal engloba nove Estados brasileiros: so 775 municpios e 24 milhes de pessoas, entre elas 250 mil ndios. Entre 2000 e 2010, a floresta perdeu 240 mil km2. O principal responsvel pela degradao  o Brasil (at porque temos a maior parte da floresta)
O tamanho da Amaznia: 59% do territrio brasileiro + 24 milhes de habitantes
Quem mais desmata
Brasil 80%
Peru 6%
Colmbia 5%
Outros 9%

6- PARECE COCANA
Nos ltimos meses, foram combatidas aes dos maiores produtores de cocana do mundo. Numa delas, a PF destruiu cem hectares de plantao de coca em solo peruano, que gerariam mais de 700 kg de droga. O governo peruano autorizou a ao. Entre junho de 2011 e novembro de 2012, os agentes das operaes gata e Sentinela tiveram muito trabalho:
20 mil presos
362 toneladas de drogas apreendidas
+R$10 milhes apreendidos
2.235 armas apreendidas

7- SENEGAL DEVE SER LEGAL
Desde 2010, mais de 5 mil haitianos entraram ilegalmente no Brasil pela Amaznia. S em maro de 2013, foram 1.600. Para tentar conter o fluxo, o Brasil emite at cem vistos por ms no Haiti. Mas  pouco, e s favorece haitianos. Imigrantes do Senegal, da Nigria e da Repblica Dominicana ficam meses em abrigos na fronteira aguardando regularizao.

8-  DO PERU
A viagem de nibus que liga So Paulo a Lima, no Peru,  uma das mais longas do mundo. So 96 horas de pura diverso.

9- DE OLHO EM INVASORES
H duas instituies que cuidam das nossas fronteiras. A Polcia Federal  subordinada ao Ministrio da Justia e investiga crimes. Nos aeroportos, no litoral e nas fronteiras, previne a entrada de armas, drogas e contrabando. J as Foras Armadas defendem o territrio brasileiro contra ataques e ocupaes estrangeiras. Em regies menos habitadas e mais vulnerveis, como a Amaznia, ambas costumam juntar foras para prevenir e combater a criminalidade.
Quem Cuida das Nossas Fronteiras
1.400 policiais federais na fronteira continental = 12 km para cada policial vigiar
40.500 militares nas fronteiras continental e martima = 600 m para cada militar vigiar.
FORAS MILITARES
2,5 mil Aeronutica
7 mil Marinha
31 mil Exrcito

MAS  POUCO PARA TANTA TERRA
EUA x Mxico
20 mil policiais
3.170 km de fronteira

Brasil x Amrica do Sul
14 mil policiais
16.886 km de fronteira

10- A PONTE DO RIO PARAN
Na trplice fronteira do Paran com a Argentina e o Paraguai, cerca de 20 mil veculos passam pela Ponte da Amizade todos os dias, levando 50 mil pessoas. Culpa dos preos atraentes do Paraguai.

11- FOI UM RIO QUE PASSOU
Toda a extenso da fronteira entre o Rio Grande do Sul e a Argentina  coberta pelo Rio Uruguai, um dos mais importantes da hidrografia brasileira. A maior parte das nossas fronteiras  demarcada por rios:
50% Rios
5% Linhas imaginrias
20% Lagos
25% Serras
Como se dividem as fronteiras secas

12- CHU-CHUY
 a cidade mais ao sul do Brasil, grudada com a quase homnima Chuy, no Uruguai. At 1978, as cheias e a ao das mars frequentemente alteravam o curso do arroio, causando problemas diplomticos entre o Brasil e o Uruguai pois ficava difcil delimitar exatamente a fronteira.

13- LONG BEACHES
Est no Livro dos Recordes: a maior praia do mundo  brasileira.  a praia do Cassino, que vai da cidade de Rio Grande (RS) at Chu (RS).
Coxs bazar  Bangladesh 126 km
Ninety Mile Beach  Austrlia 151 km
Padre Island  EUA 182 km
Praia do Cassino  Brasil 254 km

14- CRUZEIROS NOVOS
O Brasil ocupa a quinta posio no ranking mundial de cruzeiros martimos  na temporada passada, batemos o recorde de passageiros, com 805.189 cruzeiristas. A maior parte das viagens sai do porto de Santos e do Rio de Janeiro.

15- PASSE O PR-SAL, POR FAVOR
Alguns dos maiores reservatrios petrolferos do pr-sal esto no nosso mar. Em 2004, o Brasil solicitou  ONU que estenda nossa soberania martima at o final da plataforma continental, que vai at 648 km da costa. Isso tem um motivo: se o pedido for concedido, teremos direitos sobre as riquezas do assoalho do mar e poderemos ficar com os recursos naturais, que incluem  que coincidncia!  todo o petrleo do pr-sal.
Expectativa de Explorao  Explorao de Barris/Dia
2013 2 milhes. 15% vm do pr-sal
2035 5,5, milhes com o pr-sal
Fonte Agncia nacional de Energia

16- FRONTEIRA MARTIMAS
O governo tem trs nveis de controle sobre o que acontece nos nossos mares (veja nas faixas azuis embaixo desta pgina). Quanto mais distante da costa, menos autonomia.

17- MERGULHO DE RISCO
A praia de Boa Viagem, no Recife,  uma das dez mais perigosas do mundo na categoria "ataques de tubaro". Oficialmente, 55 pessoas foram atacadas de 1992 at hoje - e 20 morreram.

273 municpios litorneos
430 km municpio com maior costa  Cururupu-MA
1,75 km municpio com menor costa -  Margarida  BA


ESTADO: Amap 782 km
Pas vizinho: Guiana Francesa 730 km; Suriname 593 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  OIAPOQUE 21 mil habitantes. Um Posto de Polcia Federal; Uma Base do Exrcito.
Trplice fronteira: Laranjal do Jari (Guiana Francesa  Suriname)

ESTADO: Par 1.183 km
Pas vizinho: Suriname 593 km; Guiana 1.606 km
Fronteira: Uma Base do Exrcito.
Trplice fronteira: Oriximin (Guiana Francesa  Suriname)

ESTADO: Roraima 1.922 km
Pas vizinho: Guiana 1.606 km; Venezuela 2.199 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Bonfim 11 mil habitantes. Fronteira com Guiana - Um Posto de Polcia Federal; Trs Bases do Exrcito. Fronteira com Venezuela - Dois Postos de Polcia Federal; Trs Bases do Exrcito
Trplice fronteira: Uiramut (Guiana  Venezuela)

ESTADO: Amazonas 4.450 km
Pas vizinho: Venezuela 2.199 km; Colmbia 1.644 km; Peru 2.995 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Tabatinga 54 mil habitantes. Fronteira com Venezuela Um Posto de Polcia Federal; Duas Bases do Exrcito Fronteira com Colmbia - Cinco Bases do Exrcito. 
Fronteira com Peru  Um Posto de polcia Federal; Duas Bases do Exrcito
Trplice fronteira: So Gabriel da Cachoeira (Venezuela  Colmbia); Atalaia do Norte (Colmbia  Peru)

ESTADO: Acre 2.122 km
Pas vizinho: Peru 2.995 km; Bolvia 3.423 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Brasileia 22 mil habitantes. Fronteira com Peru - Um Posto de Polcia Federal; Duas Bases do Exrcito. Fronteira com Bolvia - Dois Postos de Polcia Federal; Duas Bases do Exrcito
Trplice fronteira: Assis Brasil (Peru  Bolvia)

ESTADO: Rondnia 1.416 km
Pas vizinho: Bolvia 3.423 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Guajar Mirim 42 mil habitantes. Fronteira com Bolvia - Dois Postos de Polcia Federal; Uma Base do Exrcito

ESTADO: Mato Grosso 854 km
Pas vizinho: Bolvia 3.423 km
Fronteira com Bolvia - Um Posto de Polcia Federal; Seis Bases do Exrcito

ESTADO: Mato Grosso do Sul 1.605 km
Pas vizinho: Bolvia 3.423 km; Paraguai 1.366 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Corumb 104 mil habitantes. Fronteira com Bolvia - Um Posto de Polcia Federal; Seis Bases do Exrcito
Fronteira com Paraguai - Trs Postos de Polcia Federal; Seis Bases do Exrcito. 
Trplice fronteira: (Bolvia  Paraguai)

ESTADO: Paran 514 km
Pas vizinho: Paraguai 1.366 km; Argentina 1.261 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Foz do Iguau 256 mil habitantes. 
Fronteira com Paraguai e Argentina - Um Posto de Polcia Federal; Uma Base do Exrcito. 
Trplice fronteira: (Paraguai  Argentina)

ESTADO: Santa Catarina 246 km
Pas vizinho: Argentina 1.261 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Dionsio Cerqueira 15 mil habitantes. 
Fronteira com Argentina - Um Posto de Polcia Federal

ESTADO: Rio Grande do Sul 2.414 km
Pas vizinho: Argentina 1.261 km; Uruguai 1.069 km
Fronteira: Maior cidade na fronteira do estado  Uruguaiana 125 mil habitantes. 
Fronteira com Argentina - Cinco Postos de Polcia Federal
Fronteira com Uruguai e Oceano Atlntico  Seis Postos da Polcia Federal
Quatro Portos Fluviais e martimos
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Rio Grand3e 196 mil habitantes
Trplice fronteira: Argentina (Barra do Quara; Brasil (Uruguaiana); Uruguai)

OCEANO ATLNTICO 7.367 KM
Mar Territorial: 22,2 km. Soberania absoluta, econmica e militar
Zona Contgua: 44,4 km. Controle administrativo
Zona Econmica Exclusiva: 370 km. Direitos econmicos sobre a gua, o assoalho e o subsolo.
Plataforma Continental: 648 km. Direitos sobre o assoalho martmo, seus seres e o subsolo.

Estado: Santa Catarina 531 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Florianpolis 402 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 4

Estado: Paran 98 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Paranagu 139 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 1

Estado: So Paulo 622 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Florianpolis 418 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 2

Estado: Rio de Janeiro 636 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Rio de Janeiro 6,1 milho de habitantes
Portos fluviais e martimos: 5

Estado: Esprito Santo 392 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Vila Velha 408 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 2

Estado: Bahia 932 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Salvador 2,95 milhes de habitantes
Portos fluviais e martimos: 3

Estado: Sergipe 163 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Aracaju 537 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 

Estado: Alagoas 229 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Macei 924 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 1

Estado: Pernambuco 187 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Recife 41,7 milho de habitantes
Portos fluviais e martimos: 2

Estado: Paraba 117 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Joo Pessoa 693 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 1

Estado: Rio Grande do Norte 410 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Natal 798 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 2

Estado: Cear 573 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Fortaleza 2,47 milhes de habitantes
Portos fluviais e martimos: 1

Estado: Piau 66 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Parnaba 145 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 

Estado: Maranho 640 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: So Luis 987 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 1

Estado: Par 562 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Bragana 106 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 2
Posto de Polcia Federal: 1

Estado: Amap 598 km
Maior cidade na fronteira com Oceano Atlntico: Macap 360 mil habitantes
Portos fluviais e martimos: 1
Posto de Polcia Federal: 1


6. COMPORTAMENTO  GUIA PRTICO CONTRA ARREPENDIMENTOS
O dia a dia anda cheio de regras: estude em uma boa instituio, arranje um emprego respeitvel, atenda s expectativas do seu chefe, dos seus amigos, do seu parceiro. Mas, no final da vida, tudo isso no vai servir para nada  palavra de quem j chegou l.
REPORTAGEM E EDIO / Karill Hueck
DESIGN / Paula Bustamante
ILUSTRAO / Michell Lott

     Bronnie Ware era uma australiana com uma bem-sucedida carreira no mundo financeiro, quando se enfezou da vida. Depois de dez anos trabalhando em bancos, juntou a coragem para pedir demisso e viajar o mundo. Foi lavadora de pratos num resort em uma ilha paradisaca, depois garonete em um pub ingls  e terminou acompanhante de uma octagenria no interior da Inglaterra. Da para virar enfermeira foi um passo natural, e Bronnie comeou a cuidar de doentes em estado terminal, aqueles sem chance de cura. Como o trabalho era emocionalmente pesado, a australiana comeou a se envolver com os pacientes e a observar um padro. Todos os doentes reagiam de formas muito parecidas com a proximidade da morte: medo, raiva, tristeza  e sempre os mesmos arrependimentos em relao  prpria vida. Bronnie comeou a anot-los. Eram eles: 1) Eu gostaria de ter trabalhado menos. 2) Eu queria ter tido a coragem de viver a vida que eu desejava, e no a que os outros esperavam de mim. 3) Eu queria ter expressado mais meus sentimentos. 4) Eu queria ter mantido contato com meus amigos. 5) Eu queria ter sido mais feliz. Pode ser que voc no queira pensar nisso ainda ou que voc j esteja l. Mas a verdade  que voc vai envelhecer (lembrando sempre que a nica alternativa possvel, morrer,  bem pior). Melhor ento no se arrepender no final.

1- TRABALHADO MENOS.
Essa  universal. Em um mundo no qual um emprego ocupa 40 horas semanais (se voc tiver sorte) e tem um significado social mais importante do que os valores morais de uma pessoa (afinal, a primeira pergunta feita quando se conhece algum costuma ser "o que voc faz?" e no "voc d esmola?"), o trabalho anda com um peso desproporcional em relao s outras questes da vida. Nunca se trabalhou tanto  o que indica que esse arrependimento  o do tempo perdido. Antroplogos estimam que nossos antepassados caadores-coletores no trabalhavam mais do que quatro a cinco horas por dia, sempre procurando ou preparando alimentos. Na Grcia Antiga, um emprego era uma sina terrvel: Homero, o autor da Odisseia, escreveu que os deuses odiavam tanto os humanos que os condenaram a trabalhar arduamente como castigo. E a condenao seguiu por milnios. A nossa relao com o trabalho s mudou no sculo 16, com a tica protestante, aquela que mede o destino das almas depois da morte com base no sucesso profissional durante a vida. Ela foi a culpada por colocar o trabalho no centro da vida das pessoas, onde permaneceu at hoje. Mas h uma crise na nossa relao com o trabalho. De acordo com uma pesquisa da consultoria americana Mercer, feita com mais de 1.200 empregados, 56% dos brasileiros afirmam que consideram seriamente pedir demisso. Para os trabalhadores do Brasil, o principal fator motivacional  o tipo de emprego que ele faz. E  ele que est em conflito. Segundo o filosfo-pop francs Alain de Botton, a crise com o emprego que estamos vivendo  a da falta de sentido. Antigamente, pessoas faziam ou realizavam algo com o seu trabalho: eram padeiros, costureiros, vendedores. Esse tipo de ocupao, que tem uma relao direta com o produto final, quase desapareceu: foi substitudo por trabalhos mais segmentados e burocrticos dentro de grandes empresas.  s procurar exemplos na lista de cargos na empresa onde trabalho  o que faz um "gerente de operaes pleno" ou um "analista de infraestrutura jnior"? Certamente, algo menos palpvel que po ou roupa. "Procuramos um significado no nosso trabalho, uma sensao de que deixamos algum melhor com o que fazemos. Ele deveria ser uma chance de criar algo que  mais slido do que o resto das nossas vidas", diz de Botton, em uma palestra sobre seu livro Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho. Deveria, mas, na maior parte dos casos, no . Ainda assim, poucas so as pessoas que resolvem dedicar menos tempo e energia a seus empregos. A prpria Bronnie sentiu isso na pele. " mais difcil largar a rotina do trabalho do que o trabalho em si. O emprego vira uma grande parte da identidade das pessoas, ao ponto de que no sabem mais quem so longe dele", diz. Essa crise de identidade nos leva ao arrependimento nmero 2.

2- EU QUERIA TER TIDO A CORAGEM DE VIVER A VIDA QUE EU DESEJAVA, E NO A QUE OS OUTROS ESPERAVAM DE MIM.
O ser humano  um animal social. S chegamos aqui, depois de milnios de evoluo, porque aprendemos a criar e manter alianas  seja para caar comida nos tempos da caverna, seja para fundar imprios ao longo da Histria, seja para arranjar trabalho e ter com quem conversar no Facebook hoje em dia. Isso quer dizer que buscamos manter e fortalecer relaes sociais  e, para isso, queremos agradar e ser aceitos. Uma pesquisa da Universidade de Minnesota testou esse nosso comportamento. Primeiro, colocou voluntrios para conversar com mulheres que eles no podiam ver, por meio de microfones. Depois, disse a metade deles que iriam bater papo com moas muito bonitas e, para a outra metade, que seriam mulheres, digamos, menos estonteantes. Imediatamente, os homens que julgavam falar com beldades comearam a ser gentis e engraados  queriam agradar as moas. Mas o que surpreendeu  que as mulheres do outro lado da linha comearam a entrar no jogo: conversavam como se fossem realmente mais bonitas do que as outras, sem nem saber que haviam sido classificadas assim. Ou seja, atendiam s expectativas dos voluntrios. Agimos assim o tempo todo, das coisas banais do dia a dia, como rir da piada sem graa de um amigo, s grandes escolhas de vida, como decidir que carreira seguir. "As pessoas no tomam decises por si, tomam pelos outros, porque querem ser queridas. Assim, a felicidade acaba na mo de terceiros", diz Ana Claudia Arantes, geriatra especializada em cuidados paliativos, do Hospital Albert Einstein, em So Paulo. O problema  que fazer o que os outros esperam de voc tem um lado pernicioso: na verdade, no deixa ningum feliz. Um estudo da Universidade Estadual da Flrida que analisou seis pesquisas diferentes sobre o assunto, concluiu que quem busca o tempo todo a aprovao dos outros, tem mais chance de desenvolver depresso. Esforam-se tanto para agradar que se perdem no meio do processo. E, claro, no conseguem fazer o que realmente tm vontade: trabalhar menos, por exemplo, dizer "no" ou... 

3 e 4 - EU QUERIA TER EXPRESSADO MAIS MEUS SENTIMENTOS E QUERIA TER MANTIDO CONTATO COM MEUS AMIGOS.
No ter dito "eu te amo" e ter passado pouco tempo com as pessoas queridas so dois arrependimentos que conversam entre si  e so dois dos mais importantes tambm. E no  a SUPER que diz isso,  o maior estudo de psicologia j feito. O Grant Study ("Grande Estudo", em portugus)  uma pesquisa que acompanha a vida de 268 ex-alunos de Harvard desde 1937 at os dias de hoje, e que mede todos os fatores de suas biografias para recolher dados sobre sade, bem-estar e escolhas de vida. E chegou a uma concluso impressionante: aos 47 anos, o fator que mais previa a sade e a felicidade de uma pessoa na velhice eram as relaes sociais que ela mantinha. Era, claro, o fato de ter um marido ou uma esposa, mas era principalmente a quantidade de amigos que eles cultivaram ao longo dos anos. O estudo concluiu que idosos de 70 anos com amigos tinham 22% a mais de chance de chegar  oitava dcada. E mais: outro estudo mostrou que quem tem o hbito de dizer a pessoas prximas como elas so importantes se sente 48% mais satisfeito com as relaes que mantm. "Os amigos nos do um senso de identidade  ajudam a nos tornar algo maior do que ns mesmos e a definir quem somos. No precisamos somente de relaes humanas. Precisamos de amigos muito prximos", diz Ed Diener, professor de psicologia da Universidade de Illinois, especialista em felicidade. O que nos leva a... 

5- EU QUERIA TER SIDO MAIS FELIZ.
Essa  de partir o corao. Chegar ao final da vida com esse remorso  mais comum do que parece. Para Diener, que estuda a felicidade h trs dcadas, ser feliz depende em grande parte das escolhas que fazemos  e no s de alguns poucos eventos de sorte espordicos. Ou seja, seria bom parar de levar a vida no automtico e exercer a felicidade. Pare de confirmar presena no aniversrio do amigo no Facebook  e v de fato. Junte a coragem de dizer para o seu parceiro que voc na verdade odeia filmes europeus e prefere ver a sequncia do ltimo Homem de Ferro. E ningum vai morrer se voc deixar seu trabalho um pouco de lado de vez em quando (um al para meu chefe que esperou trs meses para essa reportagem ficar pronta). Para Bronnie, as reaes de seus pacientes valem ouro: so um guia prtico contra arrependimentos. "Como os conselhos vm de pessoas que esto se preparando para morrer, servem como autorizao para voc mudar a sua vida tambm." Est esperando o qu? 

PARA SABER MAIS
The Working Life: The Promise and Betrayal of Modern Work. Joanne Ciulla, Crown Business, 2001.
Happiness: Unlocking the Mysteries of Psychological Wealth. Ed Diener e Robert Biswas-Diener, Wiley-Blackwell, 2008.


7. TECNOLOGIA  COMO NASCE UM METR
Em maro, um novo tatuzo, que ficou famoso no metro de So Paulo, chegou ao Brasil para trabalhar na expanso do metro do Rio. Conhea a obra e saiba como os mtodos evoluram desde o sculo 19.
INFOGRFICO
Felipe van Deursen, Rafael Quick e Carol Castro

NOME OFICAL  Tunnel Boring Machine (Mquina Escavadora de Tneis)
Velocidade  de 10 a 15 metros/dia
Preo  US$ 25 milhes  custa em mdia
Energia  vem de uma subestao instalada no canteiro de obras

O tatuzo, em fase de pr-montagem, deve comear a operar em outubro, 25 m abaixo da praa General Osrio, em Ipanema.
SEGURANA - Se houver algum acidente durante a escavao, o buraco na superfcie deve ser proporcional ao dimetro do tnel. Em caso de desmoronamento ou enchente, os trabalhadores do tatuzo ainda contam com a carcaa de proteo para se abrigar.
FIM - A maioria dos tatuzes vira sucata, j que cada um tem dimetro especfico e  feito de acordo com o solo onde atuar (argiloso, rochoso, arenoso - ou os trs juntos). Mas s vezes d para reaproveitar. O tatuzo da linha 4 de So Paulo cresceu e voltar  ativa em trechos da linha 5.
QUANDO USAR - Vale a pena deixar o tatuzo de lado se o comprimento do tnel tiver menos de 1,6 quilmetro ou se as condies geolgicas forem muito variveis, ou seja, se tiver terra, argila, areia etc. ao longo do percurso. Se houver uma rocha muito dura no caminho, as ferramentas da roda de corte se desgastam rapidamente, ento  melhor usar explosivos.

CAVANDO - A roda de corte escava a terra, que  removida para a cmara de escavao. L, um sistema de presso garante que o tnel no desnivele e mude a rota.
LIXO - Essa pea, conhecida como parafuso sem fim, leva a terra a uma correia que se estende para fora do tatuzo, at o comeo do tnel. De l, o material  levado de caminho at uma rea de descarte.
PARA FRENTE E AVANTE - Apoiados na parede do tnel, cilindros empurram a mquina para frente. Ao final de cada passo, sempre de 1,8 m, ela para e monta um anel da parede  esse  o grande trunfo do tatuzo.
LEGO DE CONCRETO - Um guincho puxa a placa e a coloca na posio de montagem. Os cilindros abrem espao para o encaixe e a pea chamada eretor coloca as placas lado a lado, formando o anel.
TOQUE FINAL - Apoiados, de novo, na parede interna, os cilindros de avano se esticam e o processo recomea. O espao entre o concreto e o solo  preenchido com uma argamassa especial que veda e estabiliza a presso no tnel.
NO TRILHO  Os anis evitam o desmoronamento do tnel. Eles so formados por placas de concreto pr-moldadas, que vm de trem ou de caminho de uma estao desativada.

EVOLUO SUBTERRNEA
Mtodos antigos, mas que s vezes ainda so usados.

ABRE E ENTERRA - No mtodo cut and cover, abriam-se valas no cho para construir o tnel. Para isso, toda a superfcie era destruda.
VELOCIDADE 1 M/DIA
ONDE E QUANDO - MAIORIA DOS METROS DO SC. 19 E INCIO DO 20: LONDRES, NOVA YORK, PARIS E PARTE DA LINHA AZUL DE SO PAULO, NA DCADA DE 1970.

SHIELD - Feito para construir o tnel sob o rio Tamisa, em Londres,  uma couraa metlica com segmentos parafusados. Os operrios abrem o segmento e escavam. A, cilindros de avano manuais empurram para a frente.
VELOCIDADE 1 M/DIA
ONDE E QUANDO - BOSTON, BUDAPESTE (FIM DO SC. 19 E INCIO DO 20) ETC.

TATUZO I - Em 1952, surgiu o primeiro tatuzo que construa enquanto cavava. Desde ento, as mquinas ficaram mais rpidas e eficientes.
VELOCIDADE 6 M/DIA
ONDE E QUANDO - WASHINGTON, MILO, PARIS (SC. 20).

EXPLODE E ESCAVA -  o mais simples: explosivos nas rochas, escavadeiras no solo. A cada 80 cm, um arco metlico  instalado para o tnel no desabar.
VELOCIDADE 1 M/DIA
ONDE E QUANDO - ISTAMBUL, MUNIQUE, MADRI, ROMA, VIENA, TQUIO, BRASLIA, LINHA AMARELA DE SO PAULO (SCS. 20 E 21).

Fontes: Consrcio linha 4 Sul, do metro do Rio; Herrenknecht, empresa fabricante do tatuzo; Hugo Cassio Rocha, presidente do Comi Brasileiro de Tneis; Tarcsio Barreto Celestino, professor de engenharia civil da USP.


8. TECNOLOGIA  PQ VCS GOSTAM TANTO DO YAHOO RESPOSTAS?
Ele  um dinossauro da internet. E continua crescendo, cheio de perguntas de utilidades pblicas  e muita bizarrice. Como? Fizemos as perguntas. E trouxemos as respostas.
REPORTAGEM / Ana Prado e Felipe van Deursen 
ILUSTRAO / Kau
Garcia 
DESIGN / Paula Bustamante 
EDIO / Felipe van Deursen

     Como fritar um ovo?". "Tomar caf demais faz mal?". "O que fazer para curar ressaca?". Ao digitar essas e centenas de outras perguntas no Google, o que sempre aparece entre os primeiros resultados  um link do Yahoo Respostas. Vai fazer um depsito bancrio e no sabe o cdigo do banco? Est l. A capital da Hungria  Budapeste ou Bucareste? Ei-la! O site pode no ter a resposta para tudo, mas tem para muita coisa. E isso  a chave do sucesso desse ancio da internet. Ou no ? Na dvida, a SUPER se cadastrou e resolveu perguntar para quem usa  e quem faz  o site. 

COMO ELE FUNCIONA?
Para perguntar, no  preciso nem ter cadastro.  possvel entrar com seu login do Facebook ou do Google. Feito isso, basta digitar a pergunta no espao reservado para ela e classific-la em uma categoria. Elas vo de artes a viagens e servem para facilitar as buscas de outros usurios. Depois,  s esperar as respostas, que chegam bem rpido. A questo fica aberta por cerca de quatro dias, quando voc e a comunidade podem votar na melhor resposta, o que d pontos para o autor (veja mais na prxima pgina).

QUEM USA O YAHOO RESPOSTAS?
Mais de 250 milhes de pessoas. Em 2012, ele atingiu a marca de 300 milhes de perguntas respondidas. Segundo o Yahoo, duas questes so feitas e seis so respondidas a cada segundo. Isso se tratando de um site lanado em 2005, quando o Orkut comeava a estourar no Brasil e pouca gente sabia o que era YouTube. Some a isso o visual digno de internet discada e temos, praticamente, um fssil da era digital. Um dinossauro que, frequentemente, aparece na frente do Twitter nas listas de redes sociais mais usadas do mundo.

MAS ISSO L  REDE SOCIAL
Para Vivek Perumal, gerente de produtos do Yahoo Respostas, o servio funciona como uma rede social, sim, pois permite conversas de usurios com interesses parecidos. E uma rede social de respeito, com oito anos de vida. Em um mundo com modas cada vez mais rpidas na internet (ah, Harlem Shake  to fevereiro de 2013), o site continua grande. Por qu? "Ele serve no apenas para compartilhar conhecimento tcnico, mas para pedir conselhos, satisfazer curiosidades", diz um estudo a respeito da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Ou seja, se o Google serve para buscar zilhes de informaes, o YR tem resultados diferentes. Vai sair pela primeira vez com algum? O Google d o endereo, as resenhas do restaurante. O YR, por meio dos usurios, ajuda a escolher a roupa. "Sem contar que muitos fruns parecem servir mais para interao apenas  como o de celebridades", completa Mark Ackerman, um dos autores do estudo. Por exemplo, a pergunta "Quem  melhor atriz: Angelina Jolie ou Jennifer Aniston?" parece destinada apenas a colocar de um lado fs da ex e de outro fs da atual de Brad Pitt.

COMO OS USURIOS INTERAGEM?
De um jeito curioso. O site no favorece discusses, afinal no  um frum. Voc no pode comentar em uma pergunta mais de uma vez, o que impossibilita estender a conversa. A soluo encontrada por alguns usurios foi quebrar uma discusso em outras perguntas, dando origem a tpicos que, para quem est de fora, podem no fazer sentido. Essa interao  algo que o finado Google Respostas (2002-2006) no permitia. Ali, um pesquisador respondia e o usurio precisava pagar entre US$ 2 e US$ 200 para perguntar. No deu certo. E por vrios motivos, entre eles o surgimento de sites semelhantes gratuitos (o Yahoo Respostas manda beijos), acusaes de plgio nas respostas e reclamaes de que o Google estaria cobrando por um servio que, nos EUA,  tarefa dos bibliotecrios pblicos. Bem, se o servio do Google morreu porque cobrava, o do Yahoo d certo por qu, ento?

QUEM RESPONDE GANHA ALGUMA COISA?
Respeito, simpatia, talvez credibilidade. Dinheiro, no. Um estudo da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, observou 100 mil usurios e descobriu que cada um deles fez em mdia 20 perguntas em um perodo de 309 dias. E respondeu 11,6 vezes mais. "Eles contribuem substancialmente para a comunidade ao responder. E isso aumenta com o tempo", diz o estudo. Sem tantas respostas, o site no sobreviveria. "Sua estrutura social  muito boa: as questes no so difceis e h muitas pessoas para responder. Se h respostas, as pessoas perguntam e o ciclo virtuoso continua", diz Ackerman. Elas gostam de sentir que esto ajudando. Algumas passam horas fazendo isso. H um estmulo a. Porque tudo, na verdade, faz parte de um jogo.

ENTO  UM JOGO, MAS NINGUM GANHA NADA?
Bem, ganha. Pontos e medalhas em um ranking para galgar posies. Isso encoraja a participao e o esforo em dar respostas de qualidade. H rankings de usurios e diferentes nveis, que do mais autonomia. Os mais altos permitem, por exemplo, que voc vote nas melhores respostas. E os usurios levam isso a srio. O lder absoluto do ranking  de So Francisco, EUA, e acumulou mais de 1,3 milho de pontos. Para se ter uma ideia, cada resposta vale dois pontos. Conhecido como Experto Credo, ele j respondeu a mais de 164 mil perguntas desde 2007 (se voc se perguntou, ele tem emprego, mulher e filha). "Acabei no YR por acidente, quando participei de um concurso e vi que era preciso ser membro para concorrer. Gostei de sentir que ajudei algum. E fiquei tentado a alcanar o lder, que tinha 350 mil pontos", lembra. No incio, Credo chegou a fazer mil pontos por dia. "Tenho insnia, ento podia levantar s 3h e responder por trs horas", diz. Hoje, ele entra menos. Tem medo. Porque os pontos estimulam a generosidade, mas tambm um lado menos simptico dos usurios. 

 TODO MUNDO BONZINHO?
No. Os trolls, gente que faz bullying na internet, tambm fazem a festa no YR. Para dar entrevista, Credo no quis dar seu nome verdadeiro, temendo represlias, pois  um alvo visado. Os trolls criam perfis falsos para denunciar lderes do ranking de alguma irregularidade que no cometeram. E isso pode causar sua expulso do site. "J recebi vrios ataques, incluindo um vdeo em que uma usuria se vangloriava por ter conseguido deletar mais de cem usurios. Era como um jogo de caa", lembra Credo. Falta do que fazer?

D PARA CONFIAR NAS RESPOSTAS?
Mdio. As perguntas so basicamente divididas em fatos ou opinies. "Para responder as do primeiro tipo, pesquiso. Sinto que 95% dessas perguntas podem ser respondidas com uma boa busca na internet", diz Credo. "J as baseadas em opinio podem ser mais complicadas, j que voc d uma resposta baseada em sua experincia  o que  ou no til, pois suas circunstncias podem ser diferentes", completa. "Antes do YR eu no tinha noo de como os jovens so desorientados", diz a farmacutica Marlia Moreira, 37 anos, lder do ranking Brasil. "Me sinto recompensada quando consigo ajudar". E a vantagem de um servio com usurios de diferentes formaes  que muitos sero, possivelmente, especializados em determinadas reas. Marlia responde muito sobre sade feminina, por exemplo. "Hoje mesmo uma menina perguntou se corria risco de engravidar, pois havia parado de tomar plula do dia seguinte. Ela estava tomando todo dia durante um ano! [a plula tem alta carga hormonal e no deve ser tomada repetidamente]". Mas, por mais que muitas respostas ajudem, a maioria  intil, de fato. Se a pergunta for complexa demais, dificilmente haver uma resposta boa. Quando perguntamos a clssica e eterna "De onde viemos?", por exemplo, responderam: "Da maternidade". O Yahoo reconhece que a qualidade  subjetiva, j que qualquer um pode responder. "Porm, nos esforamos para manter a qualidade, capacitando a comunidade para denunciar abusos e classificar respostas", explica Vivek. "Temos tambm ferramentas para encontrar contas desonestas", completa.

O SITE TEM FUTURO?
Perguntado se os trolls o afastariam do site, Credo  enftico. "No quero jogar fora meu trabalho. Tudo isso pode acabar amanh e ningum saberia que eu fui o nmero um por mais de quatro anos". Enquanto os usurios pensarem assim, o Yahoo Respostas pode estar garantido. "Eu vejo a necessidade de um lugar desses continuar a existir por um longo tempo", diz Ackerman. Para ele e os milhes de usurios do site, no se trata de buscar informaes. Mas de encontrar respostas mais humanas. 

PARA SABER MAIS
br.answers.yahoo


9. CINCIA  O SEGREDO DAS FORMIGAS
Elas j formavam a sociedade mais evoluda da Terra h cerca de 10 milhes de anos. So fortes, espertas e trabalham em grupo melhor que ns. Veja o que voc pode aprender com as formigas.
REPORTAGEM / Otvio Cohen
ILUSTRAO/ Andr Toma
DESIGN/ Fabricio Miranda
EDIO / Felipe van Deursen

     Olhando do alto, parece uma coisinha inofensiva. Nada de garras assustadoras, chifres ou mandbulas enormes que outras espcies ostentam.  pequena demais (3 mm) e tem uma picada que causa, no mximo, reao alrgica. Mesmo assim, a formiga argentina  uma das pragas urbanas mais graves do planeta. Para entender, pare de olhar do alto. No sculo 19, algumas formigas da margem argentina do rio Paran pegaram carona em navios e desembarcaram em outros portos mundo afora. Bastou para o estrago estar feito. A formiga argentina no  uma boa vizinha. Pelo contrrio,  competitiva e predadora em nveis mssicos (de Messi, o Lionel). Chegam, invadem casas, estressam famlias e disputam territrio com insetos maiores e mais sinistros. Resultado: elas esto em reas costeiras de todo o mundo. 
     Em 2000, pesquisadores encontraram uma supercolnia gigante que ocupa todo o sul da Europa, estendendo-se por 6 mil quilmetros, de Portugal  Grcia (o litoral da Argentina, s para lembrar, tem 4,7 mil quilmetros). So milhes de ninhos diferentes e bilhes de operrias. "Conheo pelo menos cinco supercolnias, mas provavelmente h outras", diz Alex Wild, bilogo especializado nas argentinas. O sucesso desses pases subterrneos  a parceria. Enquanto formigueiros comuns travam disputas entre si, os da supercolnia no competem uns com os outros.  a maior unidade cooperativa do mundo. As supercolnias existem tambm nos Estados Unidos, no Japo e na Austrlia. Por isso,  difcil encontrar uma formiga urbana que no seja a argentina, cientificamente conhecida como Limepithema humile, em lugares to distantes como Chile, Portugal e Califrnia. L, alis, as argentinas dizimaram os lagartos-de-chifres, cuja populao caiu pela metade depois que as invasoras fizeram sumir do mapa outras formigas que eles comiam. Essas formigas no passam batido. E so versteis. "Como conseguem criar formigueiros rapidamente em diversos ambientes, as argentinas se estabelecem facilmente em novos lugares", diz Wild. E, para piorar, so resistentes aos inseticidas comuns, o que faz delas formigas quase invencveis. Quase. 
     Foi em um parque na Carolina do Norte que as argentinas mostraram sua fraqueza. Segundo um estudo da universidade estadual local, a argentina ocupava, em 2008, 99% do parque, enquanto uma espcie chinesa estava em 9%. Trs anos depois, as argentinas caram para 67%. As chinesas comearam a reagir porque resistem mais ao frio. No inverno, ambas entram em um estado parecido com a hibernao. Mas a asitica volta  ativa antes, e  mais fcil conquistar territrio enquanto o inimigo dorme. As implacveis argentinas podem ter encontrado seu General Inverno e uma possvel derrota. Mas as formigas como um todo esto longe de perder no jogo da evoluo.

TODAS POR TODAS
A colnia  um organismo s. E as savas exemplificam isso.

SO MAIS DE 14 MIL ESPCIES DE FORMIGAS
Estima-se que haja outras 15 mil ainda no catalogadas

EFICINCIA DE FORMIGA
J dizia Macunama: "pouca sade e muita sava, os males do Brasil so". Numa coisa, o heri de Mrio de Andrade estava certo: as 200 espcies do gnero Atta so o maior grupo de formigas do Brasil. E o mais complexo do mundo, com cmaras, galerias e tneis.

CMARA REAL
O formigueiro comea com uma rainha criada em outra colnia. Ela acasalou e procura um novo lar. Quando encontra o local, bota ovos. Depois, comanda a colnia. Se falta alimento, solta um feromnio para orientar as operrias responsveis pela comida, por exemplo.

QUARTO DE DESPEJO
As operrias se desenvolvem e pem ordem na casa. Cada formiga tem um papel, o que  a essncia da eussocialidade (quando um grupo de insetos forma, na prtica, um organismo s). As operrias cavam tneis e buracos, que sero as cmaras do formigueiro. Algumas so para guardar restos de folhas, cadveres de outras formigas e at lixo.

RELAO CASUAL
A rainha cria tanajuras, novas rainhas em potencial, e bitus, os machos. Ambos saem em revoada em busca de parceiros. Depois da misso cumprida, o bitu morre. E menos de 1% das tanajuras consegue seu prprio ninho.

BEBS A BORDO
At 20 dias depois de sarem dos ovos, as larvas se transformam em pupas. Elas so bem parecidas com as formigas adultas, mas no andam nem comem. Este estgio pode ter vrias fases e dura at dez semanas. As pupas de cada fase podem ser transportadas para cmaras especficas para se desenvolver.

LANCHONETE
As savas cortam folhas, mas so incapazes de com-las a seco, ento cultivam jardins de fungos no formigueiro ( por isso que elas carregam as folhas, e no comem na nossa frente). Os fungos digerem a celulose e eliminam outras substncias das folhas que fazem mal s formigas. Depois, so esses fungos que servem de comida para as savas. Ou seja, elas so grandes agricultoras.

Existem 10 quatrilhes de formigas por a. Mais de 1,5 milho para cada ser humano.
1/5 de toda a biomassa animal da terra  composto por elas.

QUEM  QUEM NO FORMIGUEIRO
1- OPERRIAS CORTADEIRAS (2MM) - Responsveis pela coleta de matria-prima para o almoo. Formam aquelas filas enormes de formigas carregando pedacinhos de folhas.
2- OPERRIAS SOLDADOS (3 MM) - Esto sempre a postos nas sadas do formigueiro. Se for preciso, defendem a colnia de outros insetos e formigas rivais.
3- RAINHA (5 MM) - Passa at 20 anos botando ovos e controlando todo o formigueiro. Quando morre, o formigueiro se dissolve.
4- OPERRIA GENERALISTA (1,5 MM) - O servio domstico fica por conta delas. Alm de cuidar dos ovos e das pupas, elas limpam os ninhos.
5- LARVAS E PUPAS (AT 1 MM) - A larva passa trs semanas comendo s custas das operrias. A alimentao define seu futuro: quanto maior ela ficar, mais chances de ser soldado, por exemplo.
BITUS (3 MM) - So os nicos machos. "Homens-objetos", nascem de ovos no fecundados da rainha, vivem poucas semanas e servem para ajudar a criar novas colnias.

PENSAMENTO COLETIVO
Como elas pensam  e agem  melhor em grupo.

PORTA DA ESPERANA
Em 2012, cientistas da Universidade do Estado do Arizona, EUA, desenvolveram oito formigueiros artificiais. S metade tinha caractersticas apropriadas, como iluminao e tamanho ideais. As formigas precisavam escolher um formigueiro. Quando expostas sozinhas ao teste, elas escolheram os ninhos bons 50% das vezes. J quando a colnia inteira teve de escolher, em todas as vezes elas foram para os ninhos habitveis. 

SEM FRESCURA A MESA 
Manter uma dieta bem verstil tambm ajuda. "Elas podem explorar diferentes recursos de um ambiente sem limitao por especializao alimentar", diz o bilogo Rodrigo Feitosa, da USP. Significa que as formigas no so como os pobres lagartos-de-chifres da Califrnia citados no incio da reportagem, que morreram quando os bichos que eles comiam foram exterminados. Se uma fonte de alimento acaba, elas se organizam para procurar outra sem deixar o formigueiro desprotegido. 

COLETIVIDADE 
Em organismos eussociais, como formigas, so as caractersticas da colnia que so transmitidas s futuras geraes. Ou seja, o conceito de evoluo se aplica ao coletivo, no ao individual. As formigas que no se reproduzem, como as operrias, tm mais tempo para se especializar em outras tarefas, como a busca de alimento e a defesa do ninho. Para os bilogos, essa capacidade de evoluir em grupo  um dos fatores que garantiram a sobrevivncia das formigas por mais de 100 milhes de anos.

PARCERIA NA SIMBIOSE
Formigas tm relaes simbiticas, ou seja, em que h vantagem para todos, com mais de 400 espcies de plantas, milhares de artrpodes, fungos e micro-organismos. Junto com as minhocas e os cupins, elas cumprem a tarefa de revolver o solo e enriquec-lo com oxignio. At mesmo as formigas-cortadeiras, famosas por destruir folhas e flores, do uma mo para a natureza. Os fungos que elas criam nos formigueiros servem de adubo para espcies de rvores como a embaba, por exemplo.

7 MIL PAUZINHOS E UMA CANOA
Para no se afogar nas reas inundveis da Amaznia, formigas-de-fogo (ou lava-ps) juntam foras e formam um bote improvisado com seus prprios corpos. "Os insetos do gnero Solenopsis sobrevivem semanas sobre a gua", diz o bilogo Ricardo Solar, da Universidade Federal de Viosa (MG). O bote permite a sobrevivncia de grupos de at 7 mil formigas (incluindo a rainha e as larvas). Funciona porque elas tm um superpoder que repele a gua e  to eficiente que mesmo se voc empurrar o bote para baixo ele volta  tona.

A INCRVEL GALERIA DE FORMIGAS EXTICAS
Espcies que surpreendem cientistas (e, esperamos, voc).

PRECAVIDA
Algumas operrias de espcies nativas de regies ridas so capazes de acumular uma quantidade absurda de comida no seu abdome. Uma colnia inteira do gnero Myrmecocystus pode chegar a armazenar 1 quilo. A reserva de alimento  que  uma soluo aucarada extrada das plantas  mantm o formigueiro inteiro de barriga cheia durante o perodo de seca. 

VIOLENTA 
Em 1984, o entomologista Justin Schmidt publicou um ranking de picadas de formigas. Ele sentiu na pele a dor e depois a classificou de 0 a 4. A tocandira venceu, com um 4+. O estudo descreveu a picada como uma srie de pontadas doloridas, tremedeiras e uma vontade incontrolvel de sacudir o corpo. Na Amaznia, os ndios sater-maw enfrentam dezenas de tocandiras no ritual de passagem  vida adulta. 

ZUMBIS 
A Somopelta mnima s havia sido vista em uma plantao na Bahia em 1987. A plantao acabou, e a formiga foi dada como extinta. Mas, em 2008, ela ressurgiu numa coleta na mata da Universidade Federal de Viosa. A armadilha que capturou a formiga tambm achou uma espcie que havia sido vista pela ltima vez na dcada de 1930 na Argentina e em Santa Catarina. "Por causa de limitaes logsticas e financeiras, estudos priorizam um habitat e deixam de lado outros", diz o bilogo Fernando Schmidt, que participou das descobertas.

ESCRAVAGISTA
Algumas formigas se intrometem em colnias de outras espcies para aproveitar os benefcios de um formigueiro mais organizado. A Polyergus lucidus, do sul dos EUA,  ainda mais esperta. Como ela  incapaz de coletar alimento, usa suas mandbulas para sequestrar larvas da espcie Formica incerta. Quando crescem, elas trabalham como operrias escravas no formigueiro alheio. 

GIGANTE 
A maior formiga operria do mundo  brasileira ( tetraaa!). A Dinoponera gigantea, encontrada no Maranho e na regio Norte, pode chegar a medir 4 cm. Mas, se as rainhas, que geralmente so maiores, entrarem no preo, quem vence so as formigas do gnero Dorylus, que passam dos 4 cm por alguns milmetros. J a Solenopsis molesta, com 0,5 mm,  tida como a menor do mundo. Mas no h consenso sobre isso.

SUPERFORTE
As formigas Odontomachus tm um pelo supersensvel entre suas mandbulas. Ele funciona como um radar para dar o bote. As mandbulas ficam abertas, mas fecham violentamente quando qualquer coisa encosta no pelo. A velocidade da mordida pode chegar a 230 km/h. "Se o objeto for duro, tipo um pedao de madeira ou pedra, a formiga  arremessada para trs devido  fora que ela faz", diz Ricardo Solar. 

PR-HISTRICAS 
A Austrlia tem uma formiga-dinossauro, mas o nome  errneo. Os cientistas que a descobriram acharam que era uma espcie de 40 milhes de anos atrs. No era. Mas a Martialis heureka convivia com dinossauros  e ainda existe. Formigas duram eras. Poucos seres combinam to bem a capacidade de influenciar o ecossistema com a habilidade de se espalhar. Na biologia, o nome disso  sucesso. 


